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RESUMOS - II JORNADA

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Palestra inaugural da II Jornada da AMENA – PPGHIS/UFPR

 

Silvia Rivera Cusicanqui: sociologia da imagem e a criação de uma episteme visual para a América Andina.

Liz Andréa Dalfré

Resumo

A palestra apresentará alguns aspectos da trajetória da socióloga boliviana aimará Silvia Rivera Cusicanqui abordando, de forma geral, a constituição da disciplina denominada pela escritora como “Sociologia da imagem”. De maneira específica, a intenção é demonstrar como Rivera Cusicanqui se apropriou das imagens presentes na crônica colonial Primer nueva corónica y buen gobierno, do nobre incaico Felipe Guamán Poma de Ayala (1578-1621). Ao fazer uso deste documento, a autora construiu um caminho epistemológico para refletir sobre temas como a memória histórica indígena, a crise do presente e sobre horizontes de descolonização.

 

MESA 1 – MEMÓRIAS À MARGEM E VIOLÊNCIA NO BRASIL.

 

A representação da violência no filme Império do Desejo (Carlos Reichenbach, 1981).

Bruno Bello

Resumo

No filme Império do Desejo a violência é um elemento presente em toda a narrativa. Por meio da análise fílmica, esta comunicação tem o objetivo de discutir a dimensão política e a forma como a violência é encenada e representada no filme. Através das imagens da violência de Império do Desejo buscaremos encarar problemas relacionados ao seu contexto de produção e ao próprio discurso do filme. 

 

As imagens em Tiro ao alvo (1980): impressões

Deisi Barcik

Resumo

Ressignificadas através da arte, fotografias – imagens que foram feitas, talvez, para conservar os sujeitos do aniquilamento do tempo – são retiradas de arquivos, públicos ou privados, e em gestos de apropriação artística são reorganizadas. Essas imagens, “como uma pele descolada de sua superfície” (Rancière, 2012), que têm uma importância estratégica para certificar a existência de seres no tempo, produzem novos sentidos. Com esse pensamento inicial, é proposta uma reflexão sobre o trabalho Tiro ao alvo (1980), do artista Paulo Bruscky. Obra que, como parte de uma produção artística contemporânea que se vale da apropriação de fotos, parece se insinuar como tentativa de impedir que, nos processos amnésicos da sociedade, sejam esquecidas as atrocidades cometidas pela violência do Estado durante a ditadura militar no Brasil.

 

"Não sou um trabalhador do lixo”: narrativas dos catadores de materiais recicláveis em Guarapuava/PR

Jorge Nei Neves

Resumo

Nas últimas décadas houve importantes avanços na legislação brasileira, buscando garantir a melhoria nas condições de trabalho de milhares de catadores espalhados por todo o país. Contudo, ainda há um grande caminho a ser percorrido para a efetivação dos direitos fundamentais de homens e mulheres, que são de fato, “catadores da sobrevivência”, em meio aos detritos dos descartes urbanos no extremo da cadeia de reciclagem. Não diferentemente de outros municípios, em Guarapuava/PR, encontramos uma diversidade de contextos que envolvem esses trabalhadores, sejam eles autônomos, percorrendo as ruas da cidade, ou participando de empreendimentos associativos ou cooperativos. Ao acompanharmos esses profissionais, tivemos como objetivo analisar como ocorrem os processos de identificação destes, compreendendo como, através das memórias e das narrativas, se constroem as representações sobre essa realidade. Superar o discurso do trabalho com lixo enquanto rejeito, tem sido uma prevalência não só dos catadores cooperados, mas também de agentes externos que buscam o fortalecimento dessa categoria. Ao trazer consigo as implicações da marginalidade da atividade de catação, esses trabalhadores, ao declararem: “não sou um trabalhador do lixo”, querem ressignificar sua existência e a sua profissão, por meio de uma nova identidade individual e de classe alterando o estigma de invisibilidade. Fica evidente que há também um aspecto identitário a ser observado, que é a afirmação em dizer que o trabalho de reciclagem é distinto do trabalho com o “lixo”, no caso, o rejeito. Essa afirmação carrega consigo a construção de uma identidade de utilidade. Diferente do lixo/rejeito que é inservível, o resíduo sólido reciclável é importante como gerador de novas fontes de recurso de matéria-prima. Dessa forma, definir e distinguir seu trabalho com materiais recicláveis é trazer para si, enquanto catador, a conotação de uma atividade relevante e significativa. Mais do que reconhecer a importância dos trabalhadores da reciclagem em Guarapuava/PR, ou de qualquer outro contexto, é necessário romper com os paradigmas de exclusão que a profissão atualmente representa. Os avanços nas políticas públicas tem sido importantes, mas ainda não são suficientes para dar conta do grau de informalidade, da baixa renda e das precárias condições de vida que se encontram esses catadores.

Palavras-chave: Catadores; Reciclagem; Identidades; Narrativas.

 

MESA 2 – ARTE E GÊNERO

 

Entre astronautas e alienígenas: a perspectiva feminina da colonização do espaço nas novelas Daughters of Earth, Project Nursemaid e Homecalling (1968)

Janis Caroline Boiko da Rosa

Resumo

Durante a conturbada década de 1960, a Ficção Científica assistiu o surgimento de um novo movimento dentro do próprio campo: a New Wave. Os escritores e revistas associados ao movimento publicavam textos experimentais, que rompiam com os moldes da Ficção Científica pulp, abordavam temas até então pouco explorados, como o uso de drogas e contraceptivo, e que se aproximavam muito mais das ciências humanas do que das ciências exatas. Uma das principais apoiadoras da New Wave nos Estados Unidos foi a escritora Judith Merril, cujas resenhas na coluna Books da revista Fantasy & Science Fiction desmistificaram tendências e difundiram ideias ligadas ao movimento. Nesse cenário de disputas internas e internacionais, Judith Merril publicou o livro Daughters of Earth: Three novels (1968), o qual incluía as novelas Daughters of Earth, Project Nursemaid e Homecalling, todas elas focalizando a experiência feminina da exploração e colonização espacial. Essa mudança de perspectiva se deu em diálogo com as propostas da New Wave, assim como em contato com a mitologia de fronteira norte-americana e com a crítica ao papel imperialista dos Estados Unidos dentro do contexto de Guerra Fria. Essas diferentes influências e críticas colidem e coexistem dentro dos três textos, apresentando a complexa posição da autora enquanto escritora e ativista nos anos 1960. Buscaremos debater, portanto, como as propostas e perspectivas da New Wave se apresentam nas narrativas em questão, como esse diálogo se relaciona com as aproximações e distanciamentos de Judith Merril em relação ao imaginário de fronteira estadunidense e, por fim, como a centralidade de figuras femininas nas novelas se relacionam com os moldes especulativos aplicados pela autora e com a exploração e colonização da fronteira entre o eu e o desconhecido.

Corpos (tra)vestidos : a imagem desviante do grupo Dzi Croquettes na imprensa brasileira dos anos 1970

Flavia Jakemiu Araujo Bortolon

Resumo

Resumo: O objetivo desta tese é mapear e interpretar as representações desviantes da masculinidade normativa do grupo Dzi Croquettes publicadas na imprensa brasileira durante os anos 1970, período em que a censura moral foi implementada oficialmente pelos governos militares. O Dzi Croquettes era um grupo formado por 13 homens, que em seus espetáculos misturavam trechos de encenação humorada com dança; os artistas trajavam peças comuns ao vestuário feminino, que se mesclavam ao corpo dos atores, tidos como padrão masculino, como barbas e pelos, no objetivo de desconstruir ou flexibilizar os limites da binaridade de gênero. Não reconhecendo plenamente o intento, a imprensa, todavia descrevia os artistas como andróginos, e buscava enquadrá-los dentro de uma sexualidade reconhecível, mesmo que remetesse à homossexualidade masculina ou ao travestismo, que grande parte da sociedade conservadora considerava como um desvio moral. Somese a isso que os meios de comunicação e os artistas da década de 1970 sofriam com as rígidas leis da ditadura miliar, que censurava e proibia produtos culturais que pudessem ser classificados como um ataque à moral e aos bons costumes. Assim, a questão da ambiguidade dos gêneros e o discurso do grupo sobre serem "nem homens nem mulheres" enroscava na censura. A metodologia de pesquisa escolhida para a análise do grupo foi um levantamento histórico-documental de fontes selecionadas dos maiores veículos impressos de circulação nacional no período de formação do grupo Dzi Croquettes, em 1962, até o seu término, em 1980, confrontando as fontes com a bibliografia que abarca imagem e gênero. A partir das imagens selecionadas nos meios de comunicação foram realizadas análises baseadas em discussões preexistentes de Burke e Soulages; e na questão da homossexualidade masculina brasileira, a partir dos livros dos historiadores J. Green e Trevisan.

Palavras-chave: Dzi Croquettes; Masculinidade; Imprensa; Gênero.

Espaços de memória e performance no slam de poesia de mulheres

Kelly Yara de Souza Mendonça

Resumo

Ao falar de performance corre-se o risco de deixar algo passar. O termo polissêmico remete à expressões artísticas, políticas ou rituais. Nessa apresentação, discuto noções de performance na prática do poetry slam, fenômeno contemporâneo das batalhas de poesia, indo além do sentido artístico para expressar demandas identitárias e comunitárias. Nas comunidades de slam com participação exclusiva de mulheres, a performance conjuga expressões literárias e estéticas em narrativas conectadas à experiência pessoal e coletiva, compondo o espaço biográfico contemporâneo. Nesses encontros compartilham memórias, saberes subjugados, desejo de transformação e acolhimento através da poesia.

 

MESA 3 – ESPAÇOS PÚBLICOS COMO TERRITÓRIOS DE MEMÓRIA E EDUCAÇÃO.

 

A defesa da memória e da pesquisa: a gestão de Adalice Araújo no Museu de Arte Contemporânea do Paraná (1987-88)

Luana Oliveira

Resumo

Quando a crítica de arte Adalice Araújo assumiu a direção do Museu de Arte Contemporânea do Paraná, em 1987, ela apresentou ao Governo do Estado, por meio da Secretaria de Educação e Cultura, um plano de ação intitulado “Proposta para agilização da política cultural na área das artes plásticas”. Sua intenção era utilizar o MAC como centro de uma rede de cultura que abrangeria o Paraná todo, fomentando e investindo na arte de todo o estado.

 

Afetos e memórias nas ocupações secundaristas

Anne da Rocha

Resumo

Entre os meses de outubro e novembro de 2016, mais de mil instituições de ensino públicas foram ocupadas por todo país, sendo cerca de oitocentas no Estado do Paraná. A motivação política principal do movimento secundarista foi o decreto da MP do Ensino Médio (MP 746), apresentada em setembro pelo presidente Michel Temer. Esta fala é resultado de uma série de entrevistas feitas com estudantes São Joseenses que estiveram nas primeiras ocupações do movimento. A partir dessas fontes, foi possível compreender os aspectos grosseiros e sutis que permearam o acontecimento, tornando visível as relações de afeto relacionadas à escola e ao movimento de ocupações.

O que abriga: a formação do acervo de arte do Museu Oscar Niemeyer

Karoline Barreto

Resumo

A pesquisa a ser apresentada refere-se a tese defendida em 2020 na mesma linha de pesquisa, cujo título é “O que abriga: A formação do acervo de arte do Museu Oscar Niemeyer”. Levando em consideração que este museu, o MON, abriu suas portas em 2003 com um acervo já parcialmente constituído por meio da herança de outras instituições extintas, o percurso investigativo deste trabalho analisou três aspectos destas coleções a serem apresentados brevemente no evento.  A primeira etapa apresenta algumas narrativas da imprensa local que auxiliaram no estabelecimento de um imaginário local e/ou de uma memória coletiva dos museus, suas aberturas, exposições e acervos. A segunda analisa o contexto político, histórico e cultural em que se inseriam as instituições vinculadas, visando compreender o impacto que leis e políticas públicas culturais têm tido nas aquisições e doações de obras de arte para os acervos. Já a terceira etapa se foca nos contratos e fichas catalográficas das obras do acervo, possuindo caráter numérico e quantitativo, e traz dados comparativos importantes sobre os perfis institucionais de escolhas, desempenho e gestão. Ao demonstrar brevemente cada aspecto da análise, espera-se afirmar como o museu é um território de memórias e educação e que, no caso do MON são através das relações de poder ali constituídas e das intenções parciais de quais memórias o museu quer e vem construindo.

A curadoria estratégica como recurso adotado pelo Instituto Paranaense de Arte (IPAR) para a 14ª Bienal de Curitiba (2019-20)

Aline Luize

Resumo

O caráter diplomático é indissociável das megaexposições periódicas de arte contemporânea, no entanto, nenhum outro evento nacional desse porte parece tão à vontade com a inclinação em atender aos interesses de governos quanto a Bienal de Curitiba. Estabelecendo-se na capital do Estado do Paraná no início dos anos 2000 – mesmo período em que a permanência do modelo Bienal começou a ser posta em xeque – o Instituto Paranaense de Arte (IPAR), instituição promotora dessa megaexposição, não tardou em construir e aprofundar vínculos com as instâncias do poder público para assegurar sua sobrevivência. Em 2017 o evento inaugurou um formato curatorial em “homenagens”, dando atenção à China naquele ano e em 2019 ao BRICS. Nesta comunicação trago para discussão as principais questões presentes na minha pesquisa de dissertação, que investigou a aproximação entre a megaexposição de arte contemporânea e a agenda política dos governos em nível municipal, estadual e federal. A abordagem principal da pesquisa foi compreender como tal disposição impactou o processo curatorial da 14ª edição (2019), intitulada “Fronteiras em Aberto”. Para tal foi importante adotar duas abordagens, a primeira compreendendo a configuração institucional do IPAR, os antecedentes da Bienal de Curitiba e as circunstâncias internas que favoreceram a oportunização do evento aos governos. A segunda, onde busco chamar a atenção para o projeto curatorial da 14ª Bienal como resultado de um recurso estratégico adotado pelo IPAR, se concentrou na análise das exposições do núcleo central do evento dentro Museu Oscar Niemeyer, espaço que foi dedicado às homenagens aos países do BRICS. As fontes consultadas são catálogos, acervos de imagens digitais e registros fotográficos das exposições, assim como arquivos legislativos, documentos oficiais e notícias publicadas pelas agências e portais dos governos. O processo interpretativo foi amparado por autoras/es das Artes Visuais e da Sociologia, como Lisette Lagnado, Paulo Herkenhoff, Moacir dos Anjos e Stuart Hall. Seus escritos embasaram discussões sobre “fronteiras”, bienais e o cânone das “Representações Nacionais” que foi revisitado pela 14ª Bienal de Curitiba.

Palavras-chave: 14ª Bienal de Curitiba; Instituto Paranaense de Arte (IPAR); Curadoria de arte contemporânea. 

 

MESA 4 - IMAGEM E IDENTIDADES

Fotojornalismo e Colonialidade

Bruna Barbosa

Resumo

Até o período da II Guerra Mundial, os registros fotojornalísticos foram difundidos principalmente nas páginas de jornais e revistas. Após o conflito, essas imagens ganharam novos espaços (museus, galerias, livros de arte) e status (de documental a arte). Um dos fatores decisivos desse processo foi o surgimento de cooperativas de fotógrafos que visavam uma maior independência temática e um domínio sobre as imagens que produziam que antes ficavam nos arquivos de jornais. Um exemplo é a Magnum, fundada em 1947 por Henri Cartier-Bresson, Robert Capa, David Seymour, George Rodger, hoje, uma das principais cooperativas do mundo. Surgiu, então, uma nova relação entre fotógrafo e jornais que gerou um maior controle do fotógrafo sobre seus arquivos e sobre os usos e espaços de difusão dessas imagens. Um dos fotógrafos que surge já nesse contexto é o brasileiro Sebastião Salgado. Tendo iniciado na profissão nos anos 1970, Salgado trabalhou em cooperativas como Gamma, Sygma e a própria Magnum, espaços onde conquistou uma independência temática e um controle sobre o uso de suas fotografias até abrir a sua própria empresa onde é o único fotógrafo, a Amazonas Imagens, fundada nos anos 1990. Em 2007, o fotógrafo lançou o livro África, uma reunião de imagens que produziu no continente desde sua primeira viagem, passando por pautas encomendadas, parcerias (como Médicos sem Fronteiras, a Onu e a UNESCO, por exemplo), até seus projetos pessoais (Êxodos, Gênesis, Trabalhadores). Esta pesquisa visa analisar os usos dessas imagens dentro do livro, retomadas fora de seu contexto histórico para construir um retrato singular de África. Ao publicá-lo, o fotógrafo amplia a esfera social onde uma perspectiva sobre África é mostrada, vista e discutida. Através da análise do livro, de falas do fotógrafo e de outros usos dessas fotografias ao longo do recorte temporal (1970 - 2007) , visamos analisar as problemáticas presentes na atuação e na narrativa de Salgado e em seu livro África.

Retratos de indígenas e as contradições do discurso paranista na Revista Illustração Paranaense (1927-1930)

Noemia Paula Fontanela

Resumo

A pesquisa utiliza como fonte a revista Illustração Paranaense, que circulou mensalmente no Paraná entre os anos de 1927 e 1930. O recorte para essa mesa parte da observação de que em um primeiro momento a narrativa contida na revista exaltava o papel do indígena na origem da constituição de uma identidade paranista, mas por outro, a revista praticamente o excluía ao simplesmente ignorar a presença dessa população quando retratava o cotidiano dos paranaenses daquele período. Ao analisar as fotografias que recheavam as páginas da revista e que enalteciam uma “beleza paranista”, uma “família típica paranaense”, constatou-se que de um total de 1679 fotografias distribuídas nos 27 números publicados, são apenas 3 as passagens contendo retratos de indígenas da comunidade local, totalizando 4 fotografias. Tal constatação permite afirmar que o ideário paranista propagado pelo periódico tinha no indígena uma figura meramente ilustrativa de uma parte da história do Paraná. O povo indígena do estado não apareceu efetivamente inserido naquela grande comunidade, formada por todas as raças como enaltecido pelos paranistas. Seu espaço na Revista restou reservado ao passado. Não se percebe qualquer interação com a elite branca paranaense, que recheava as páginas da revista com retratos que apontavam ser aqueles rostos brancos os rostos dos paranaenses típicos. 

Orun e Àiyê, os dois mundos e as duas histórias interdependentes de “Barravento” (Glauber Rocha, 1962)

Thiago Henrique Felício

Resumo

A comunicação apresenta a análise que a tese de doutorado intitulada “Cineasta, historiador ou sujeito subversivo? O caso Glauber Rocha e a repressão aguda aos excluídos da história após o golpe de 1964”, defendida no ano de 2020, dedicou a “Barravento” (Glauber Rocha, 1962), obra estudada como aquela que se impôs como um importante marco da ascensão do movimento cinemanovista ao lado de algumas outras lançadas no mesmo ano de 1962, como “Porto das Caixas” (Paulo Cesar Saraceni) ou “Cinco Vezes Favela” (Marcos Farias, Miguel Borges, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues). O texto final deste trabalho teve o intuito de desconstruir o conceito de nacional-popular, ao menos parte de suas implicações. E o motivo disso, dentre outras coisas, é porque essa chave relaciona-se com a noção de “populismo”, essa importada de um jornalismo contemporâneo da conjuntura de 1964 e que tinha a intenção de reduzir a experiência democrática brasileira que se deu a partir de 1945 a uma caricatura. A partir dessa prerrogativa, hermenêutica (Ricoeur), a referida pesquisa concluiu sobre o filme que o seu significante suporta duas linhas temporais coexistentes, uma vez que ele fala ao mesmo tempo da ação dos Orixás (Orun) e da ação dos homens (Àiyê) e concluiu também que essa duplicidade deve ser vista como um elemento da estrutura narrativa e do seu próprio discurso. Procurar-se-á informar que estas conclusões trazem implicações para a definição do enunciante de seu discurso, que constituiu-se a partir dos valores e códigos dos sujeitos economicamente oprimidos, o que implica uma crítica a alienação a partir dos valores da própria religiosidade afro-brasileira.

Palavras-Chave: Barravento; candomblé; história e cinema.

Identidade nacional no filme Lavoura Arcaica (Luiz Fernando Carvalho, 2001)

Douglas Gasparin

Resumo

Pensar a questão da identidade nacional nesse contexto de um Brasil em efervescência, de disputas narrativas políticas entre a esquerda e a direita nos coloca diante de um cenário delicado, onde cada posicionamento interpretativo pode ser lido a partir dos cismas ideológicos inevitáveis nos quais o país acabou adentrando. Sendo assim, não podemos esquecer que se posicionar no debate sobre identidade nacional nunca foi tarefa simples, já que o assunto sempre esteve permeado por cisões interpretativas que são atravessadas pelos conflitos políticos. De fato, o que se apresenta como novidade no contexto político atual são os novos investimentos (vídeos, documentários, páginas em redes sociais, etc) que os grupos conservadores estão fazendo na tentativa de retomar uma ideia de identidade nacional muito específica. Dito isto, proponho algumas perguntas e reflexões para esta apresentação: quais são e de onde partem essas narrativas sobre a identidade nacional? Como o cinema se insere dentro desse debate? Como a obra LavourArcaica contribui para o debate acerca da identidade nacional?

MESA 5 – ESCRITAS DA MEMÓRIA

“Unir e conscientizar o povo é a tarefa da vanguarda”: a ofensiva permanente e as tensões entre o estado e as comunidades no Moçambique independente (1974 – 1986)

Fabiane Furquim

Resumo

O trabalho busca analisar a ofensiva política da FRELIMO de 1974 à 1986 compreendendo o processo e os desdobramentos do projeto marxista-leninista no país pós independência, considerando as tensões causadas pelo partido ao assumir papeis antes designados a outras instituições, tais como a família e a justiça.  Partindo das políticas feitas pelo projeto modernizador do Homem Novo, investiga-se a ofensiva educacional que foi base para a implementação do projeto frelimista, compreendendo que esta não está restrita apenas a educação formal ensinada nas escolas, mas também às instituições familiares e de justiça.  Ao analisar as tensões causadas pelos discursos analisados, o que se pretende é discutir como a narrativa do Homem Novo acaba por tensionar as relações entre Estado e população, da mesma forma de como se constrói a partir disso uma narrativa base para a construção da “nação” e do “cidadão ideal” após a libertação. O contexto está imbricado de relações que acabam por criar espaços entre os corpos de lei e de disciplina com a inserção ou não da população nas mesmas, criando então as margens onde o Estado não chega. Partindo deste ponto, Veena Das e Deborah Poole apontam para as questões de legibilidade e ilegibilidade nas relações entre a construção do legal/ilegal, norma/exceção e o lugar das pessoas nesses espaços. Nesse sentido, para as autoras, a ideia de soberania não é definida somente pela lei, mas abrange diversas categorias de intepretação (DAS e POOLE, 2004). Nessa perspectiva, observa-se com essas discussões que a formação do Estado e de seu projeto modernizador gerou tensões no desenvolvimento do cotidiano. Partha Chaterjee discorre sobre a questão de o Estado assegurar a sua legitimidade não necessariamente através da participação dos cidadãos, mas por se proclamar como portador do discurso de bem estar pelo qual os conflitos serão resolvidos (CHATERJEE,2004, p.107), conceitos esses que auxiliam para a compreensão do caso moçambicano. Desse modo, a fala busca conversar sobre esses aspectos e tensões e contribuir para as discussões acerca do período marxista-leninista em Moçambique, investigando processualmente as suas características e desdobramentos, sem partir da perspectiva de analisar o seu êxito ou fracasso.

 A Libertadora do Libertador, do dramaturgo chileno-peruano Sergio Arrau (1928-2017)

Manuel Guerrero

Resumo

Análise desenvolvida no segundo capítulo da tese do palestrante defendida em 2015 sob a orientação da Profa. Dra. Rosane Kaminski. A Libertadora del Libertador é um monólogo em que se narra momentos da vida de Manuela Sáenz, amante do libertador Simón Bolívar, a quem acompanhou durante suas lutas contra a Coroa espanhola nas terras que hoje correspondem ao Peru, ao Equador, à Colômbia e à Venezuela. A protagonista lembra e narra lembranças: esta é a ação que a faz existir como personagem teatral, o verbo que organiza a peça. Pretende-se mostrar a relação com a Memória e com a História que o dramaturgo elabora neste texto de literatura dramática.

A fotografia para além do registro histórico: o trabalho social, pedagógico e artístico de Tina Modotti nas “Escuelas Libres de Agricultura”

Fabiane Muzardo

Resumo

A década de 1920 no México foi marcada por intensa produção cultural. Tina Modotti e outros artistas das mais variadas áreas iniciaram um projeto que visava produzir uma arte que fosse pública, ou seja, que fosse feita pelo povo e para o povo. Nesse sentido, a arte mexicana dessa década é marcadamente política. Tina foi uma fotógrafa italiana que se mudou para o México no início dos anos 1920. Seu trabalho inclui fotografias de murais, camponeses, símbolos comunistas, manifestações de trabalhadores, plantas, arquitetura, caveiras e escolas agrícolas, dentre outras temáticas. Suas fotografias foram publicadas em inúmeros periódicos, desde revistas de arte até atas de criação dessas escolas. Aqui, analisa-se as fotografias de Tina que compõem as atas de criação e desenvolvimento das escolas agrícolas, entendendo-as como uma produção que possui, ao mesmo tempo, um sentido social, pedagógico e artístico. 

Palavras-chave: Tina Modotti; fotografia; México; arte; política.

 

Hindutva: a busca por uma nação hindu e a crítica à Índia Contemporânea

Michele Souza de Oliveira

Resumo

Hindutva designa a "essência hindu" em seus aspectos espiritual, político e histórico. O termo foi cunhado pelo médico e ativista hindu Vinayak Damodar Savarkar em livro homônimo publicado no ano de 1923, apesar de ser visto pelo seu criador muito mais como uma força política do que espiritual. Na Índia pós-Partição, hindutva se tornou sinônimo de "indianidade", entendendo como indiano e nacional apenas as características e práticas culturais originadas no processo de formação do Hinduísmo nos séculos XVIII e XIX, excluindo de seu meio toda a pluralidade cultural, linguística, religiosa e política que são inseparáveis da história e das vivências do subcontinente indiano. Com isso em vista, pretendemos abordar nessa comunidação, de forma geral, a influência que o pensamento hindutva exerceu na formação da nação indiana independente e o crescimento do movimento nacionalista hindu nas últimas décadas.

Palavras chave: nacionalismo hindu; BJP; islamofobia. 

De celebrado a proscrito: a produção de sentidos em torno do filme Independência ou Morte (Carlos Coimbra, 1972)

Olívia Baldissera

Resumo

Em 1972, ano do Sesquicentenário, o governo Médici (1969-1974) organizou um calendário oficial de comemorações, marcado pelo retorno de Portugal dos despojos de D. Pedro I, pela Taça Independência e pelo Encontro Cívico Nacional. Extraoficialmente, um filme histórico que narrava a trajetória de vida do imperador compôs a programação do aniversário de 150 anos da Independência do Brasil. Independência ou Morte (Carlos Coimbra, 1972) estreou em 4 de setembro de 1972 em todas as capitais do país e em Portugal. Antes mesmo de ser exibido nas telas de cinema, o longa-metragem já motivava a produção de sentidos legitimadores em torno de sua realização, que enalteciam as proezas técnicas e o caráter educativo da narrativa. Novos sentidos foram incorporados com o passar das décadas, em especial após a Redemocratização, e Independência ou Morte passou de um filme celebrado para um filme proscrito. A presente comunicação irá explorar a produção de sentidos em torno de Independência ou Morte, publicizados em entrevistas, críticas cinematográficas, matérias de jornal e telegramas. Serão analisados os discursos dos realizadores do filme, de representantes do governo Médici e de críticos de cinema com o objetivo de apreender os diferentes sentidos associados ao filme com a mudança de regime político no Brasil.

Construindo um imaginário nacional: nacionalismo na televisão turca

Pricyla Weber Imaral

Resumo

A Turquia é um grande consumidor de telenovelas, as produções nacionais são mais consumidas no país que as séries estadunidenses (NARIMAN apud ONARAN, 2011. p. 173). Yeşim Kaptan and Ece Algan (2020, p.10) alegam que o turco no geral tem preferência por séries românticas, gastando em média quatro horas por dia em frente a televisão. Levando-se em consideração o grande interesse do público por essas produções, que a politização desses conteúdos ganharam força. As telenovelas se tornaram uma ferramenta para divulgação da identidade nacional turca. Isso, no entanto, não vem acontecendo apenas com o AKP - trata-se de uma política antiga, sendo possível encontrar diversas outras telenovelas que seguem por esse caminho da politização. Nesse cenário então, os melodramas de televisão têm sido bastantes explorados pelo Estado-nação para construir e legitimar a identidade definindo noções de cidadania e etnicidade.

Palavras-chave: Turquia, Nacionalismo, Telenovela.

Kalevala e a máquina mitológica da “finlandesidade”

Felipe Augusto Tkac

Resumo

A literatura épica, em sua versão implementada, seja por criação ou por releitura, pelos projetos nacionalistas do século XIX, faziam parte de uma das etapas que compunham o que Miroslav Hroch chamou de fase A de tais projetos, na qual a excitação patriótica era encabeçada por uma intelligentsia focada nos aspectos culturais de um certo Volk visto como o “legítimo” portador dessa pretensa nacionalidade. No caso finlandês, a compilação e escrita de uma epopeia, Kalevala, por Elias Lönnrot, cumpriu parte desse papel antiquarianista, e aqui, propomos uma leitura, no sentido geral de entendimento de um “objeto” histórico, dessa epopeia a partir do conceito de máquina mitológica desenvolvido pelo historiador e mitólogo italiano Furio Jesi.

Palavras-chaves: Kalevala; Elias Lönnrot; Máquina mitológica; Furio Jesi; Nacionalismo.

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